Soja

Pesquisadores alertam para nematoides nas lavouras de soja em MT

Especialistas da Fundação MT chamam a atenção também para a ferrugem asiática, especialmente nas lavouras de ciclo tardio, ainda em campo

02 de Fevereiro de 2018 as 14h 16min

O produtor de soja deve manter o estado de alerta em relação à ferrugem (Foto: Divulgação)

A colheita da safra 2017/2018 de soja em Mato Grosso vem indicando bons níveis de produtividade. No entanto, há maior ocorrência de nematoides e o produtor deve manter o estado de alerta em relação à ferrugem. É o que afirmam pesquisadores da Fundação MT, que realizaram nesta semana um dia de campo em sua estação experimental em Nova Mutum, na região da rodovia BR-163.

“A safra é boa. Não significa que todos os produtores vão colher bem. Existe uma heterogeneidade de produtividade. Mas, no geral, são muito boas”, resume o gestor técnico da Fundação MT, Leandro Zancanaro.

O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima que os agricultores do Estado semearam neste ano 9,42 milhões de hectares, área 0,17% maior que a da safra 2016/2017. A produção é estimada até o momento em 30,6 milhões de toneladas do grão, 2,14% a menos em comparação com a temporada passada, que foi excepcional em termos de produtividade, favorecida pelas boas condições climáticas.

De acordo com Leandro Zancanaro, atualmente nos locais de melhor rendimento os produtores vêm colhendo entre 75 e 80 sacas por hectare em lavouras plantadas com variedades de ciclo precoce. Nos piores resultados, a colheita tem ficado entre 45 e 50 sacas, em média, para cada hectare. Segundo o pesquisador, a irregularidade do regime de chuvas levou a essas variações.

“As chuvas irregulares afetaram o estabelecimento de algumas lavouras. Mas houve áreas onde foram bem plantadas e o clima foi favorável. O material precoce, muitas vezes, não consegue compensar o crescimento irregular. Se uma planta não desenvolve bem, outra não compensa isso”, explica o pesquisador.

De acordo com o Imea, a colheita da safra 2017/2018 de soja chegou a 12,35% da área até o fim da semana passada. Os dados desta semana devem ser atualizados nesta sexta-feira (2/2). No entanto, produtores relatam dificuldades de realizar o trabalho de campo em função das chuvas nos últimos dias.

Agricultor em Nova Mutum, Sérgio Viecili conta que, nos últimos cinco dias, só conseguiu colher um volume equivalente a três carretas, algo em torno de 90 toneladas. E o que sai do campo tem elevados índices de umidade, entre 20% e 25%. “A gente colhe um pouco, depois para. O comprador não recebe a soja com essa umidade”, lamenta Viecili, que conversou com a reportagem em uma manhã chuvosa no campo experimental da Fundação MT.

As condições climáticas nesta safra devem deixar a produtividade abaixo da expectativa do agricultor. Viecili plantou 840 hectares com soja de ciclo precoce e semiprecoce. Esperava um rendimento entre 58 e 60 sacas por hectares, mas, neste momento, não acredita em mais do que 55 sacas por hectare.

“Muito sol no início e agora a chuva. Mas a safra não deixa de ser boa. No ano passado foi excepcional”, diz o agricultor.

Ex-diretor técnico da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), o consultor Neri Ribas não arrisca um número, mas também considera que haverá perda de produtividade na lavoura de soja. Ele lembra que a safra começou com atraso no plantio e a chuva que faltou no início agora está vindo em excesso. Mesmo nessas condições, avalia como positivos os resultados até agora.

“Por ter sofrido tudo isso, começou até com produtividades boas. A chuva vem em excesso e o produtor tem que colher porque tem a segunda safra de milho e algodão para fazer. Tem suas penalidades. O quanto vai ter de frustração, depende de cada situação”, diz ele.

Ribas lembra que a agricultura de Mato Grosso está vindo de um safra grande, como foi 2016/2017. E pondera, pelo visto até agora, que, mesmo com perdas, o resultado final desta temporada não deve ficar longe dos níveis históricos do Estado.

“A soja precoce surpreendeu, pelo que era esperado de quebra. A questão é daqui para frente, essa soja de ciclo médio porque qualquer 10 dias sem chuva influencia o enchimento dos grão. Mas ainda está sendo uma safra boa”, avalia.

Nematoides
Além do clima, a presença de nematoides nas lavouras de soja de Mato Grosso acendeu o sinal de alerta. Segundo os pesquisadores da Fundação MT, a maior queixa foi em relação ao nematoide de cisto. “A safra se desenvolveu bem, mas acendeu a luzinha para o ‘sócio’. Ele começou a mostrar que se o produtor não cuidar, a participação vai ser maior”, alerta Leandro Zancanaro.

Especialista em nematoides da Fundação MT, Rosangela Silva avalia que essa maior incidência é fruto do menor uso de cultivares resistentes. São variedades, em geral, com maiores níveis de produtividade, diz ela, que trazem, por outro lado, um risco maior para as plantas. Desta forma, um agricultor que semeou uma variedade mais suscetível esperando um rendimento em torno de 75 sacas por hectare, por exemplo, com uma eventual perda de produtividade causada pelo problema, pode colher algo em torno de 70.

“Durante muito tempo, o produtor estava trabalhando só com variedade resistentes. Esse ano foi menos. Daqui um ano, se ele não voltar com a resistente, eu não sei se ele vai conseguir produzir porque a sensível vai reduzindo produtividade. Tem um limite”, explica a nematologista.

Uma mesma raiz pode ter mais de um nematoide. No dia de campo, Rosangela mostrou plantas atingidas pelo “de cisto” e “de galha”. Para diminuir essa sobrevida, ela recomenda um manejo que concilie várias ferramentas. Desde uma boa cobertura de solo, passando pelo uso integrado de controle químico e biológico, além do uso de variedades de soja que tenham resistência.

“O conjunto é a melhor opção. Quanto mais tempo a gente impõe dificuldade para o nematoide sobreviver, mais tempo o produtor vai conseguir ter uma área mais saudável e sustentável”, diz ela.

Ferrugem
Os pesquisadores da Fundação MT reforçam também o alerta para a ocorrência de ferrugem asiática da soja em Mato Grosso. Neste momento, as condições climáticas têm sido favoráveis à doença.

“Metade da safra de soja foi plantada em novembro e essa parcela sofre risco de ferrugem, especialmente o material de ciclo longo. O cenário é de maior pressão do que no ano passado. Boa parte dos casos de ferrugem já registrados nessa safra são na região de cerrado”, alerta o consultor técnico da Fundação MT, Fabiano Siqueri.

De acordo com o Consórcio Antiferrugem, que monitora a ocorrência da doença, a safra 2017/2018 já contabiliza 257 registros. Em Mato Grosso, foram registrados 34 casos, atrás apenas do Paraná (108) e de Mato Grosso do Sul (38).

Com base nos dados do Consórcio, Fabiano Siqueri chama a atenção para o rápido crescimento das ocorrências. Em novembro de 2017, foram cinco casos. Em dezembro, foram mais 58 e em janeiro outros 190. Em Mato Grosso, todos os focos foram identificados de dezembro para cá.

“As condições climáticas até agora foram favoráveis ao fungo. A situação é de alerta extremo. Intensificar o controle fará a diferença”, recomenda o pesquisador.

*O repórter viajou a convite da Fundação MT


MT Agora - Raphael Salomão | Globo Rural

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