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Artigo: A difícil vida do branco, hétero e rico

Até eu quero saber: como é que um cidadão como Ives Gandra Martins consegue viver no Brasil?

20 de Novembro de 2017 as 09h 41min

O Ives Gandra não é negro, nem homossexual, nem índio, nem sem-terra e pergunta como vai fazer para viver no Brasil nos dias atuais.

Alega o renomado tributarista que, de certo modo, virou minoria. Por um momento, fiquei com pena de Ives Gandra.

Ele, coitado, é mesmo franca minoria em nosso país. Está confortavelmente instalado em 3 andares inteiros na Alameda Jaú, Cerqueira César, num dos bairros mais refinados de São Paulo.

Não é para qualquer um. Trata-se de 0.001% da população. Como será aguenta viver nos Jardins? É quase impossível

Sendo branco, advogado, católico, professor aposentado, presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomércio de São Paulo, estou emocionado com as condições deploráveis de vida deste reles pagador de tributos.

Até eu quero saber: como é que um cidadão como Ives Gandra Martins consegue viver no Brasil?

No Brasil, de acordo com o IBGE, mesmo com a política de cotas, 13% de jovens negros chegam às universidades, um escândalo para Ives Gandra Martins.

É menos da metade que os pobres brancos que não têm a menor condição de cursar medicina, por exemplo, um curso em que 98% do corpo discente é composto pela minoria de Ives Gandra, ou seja, brancos.

Já os pobres – ah, os pobres, sempre atrapalhando a riqueza nacional! – somam 8.3% dos estudantes universitários nas instituições públicas de ensino superior, e ficam com 4% das vagas nas faculdades particulares.

É um absurdo que pretos e pobres tenham tanto espaço, tantas vagas, sejam tratados de forma mais benéfica, na visão do causídico que se desespera vivendo nesse regime opressor tupiniquim.

Na visão de Ives Gandra, ser índio no Brasil é morar num paraíso. De cada 1000 crianças indígenas, 50 morrem antes de completar 1 ano de vida, 100% mais do que a média nacional.

Do alto dos 3 andares do escritório na Cerqueira César, Ives reclama que os índios estão com uma porção de terra absolutamente desproporcional ao número de habitantes que sobraram nas aldeias.

Segundo o banco de dados do SUS, 55% das mortes por desnutrição ocorrem entre índios.

Na visão do emérito professor Ives Gandra Martins, é provável que esses índios morram porque não querem comer. E, talvez, diga ele que são pobres – sim, são os cidadãos mais pobres do país – porque decidiram viver na extrema miséria.

Há de mostrar três ou quatro índios com caminhonete, vivendo nababescamente, enquanto não diz que as tribos passam fome, morrem de diarreia, malária, tuberculose e outros presentes deixados por sociólogos, antropólogos e assemelhados.

A cada ano, morrem 365 gays, lésbicas , bissexuais e travestis. Apenas pela condição sexual, nada mais.

Esse índice faz do Brasil o país que mais violenta sexualmente suas minorias que, na visão de Ives Gandra Martins, é privilegiada por políticas públicas com secretarias, comissões e outros disparates.

Contra as mulheres, são contabilizadas 5 mortes a cada 100 mil, o que coloca o país em 5º no ranking de mais violento.

Especificamente contra mulheres negras, o homicídio subiu em 54% nos últimos 10 anos, conforme dados do Ipea.

Num balanço recentemente realizado pela Central de Atendimento à Mulher, em comparação a 2014, houve aumento de: 44,74% no número de relatos de violência, 325% de cárcere privado (média de 11,8/dia), 129% de violência sexual (média de 9,53/dia), 151% de tráfico de pessoas (média de 29/mês).

O doutor Ives Gandra Martins deve sofrer com algum tipo de síndrome de alheamento. É acometido pelo pensamento simplista de que, quando há trabalho e educação, há prosperidade.

Ocorre que os negros, índios e LGBTs têm 70% menos estudo e, portanto, menos chances no mercado de trabalho. A culpa é deles mesmos – essa gente preguiçosa que vive de bolsas do Governo.

Ele deve pensar que gays podem ser gays somente da porta de casa para dentro, pretos devam voltar para a África, assim como índios devam se confinar em aldeias inacessíveis.

Concordo com o professor-doutor: é muito difícil viver no Brasil. Vou além: como é que nós conseguimos conviver com alguém como Ives Gandra Martins num mesmo país?

EDUARDO MAHON é advogado e escritor em Cuiabá.


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