Coluna

Artigo: Conforto dos animais

Os criadores não teriam resistência em adaptar-se ao aumento do espaço para os animais, desde que vendessem mais caro

Artigo | 06 de Junho de 2017 as 05h 54min
MT Agora - Mídia News

A criação moderna de aves, suínos e vacas leiteiras etc. busca ganhos de produtividade somente possíveis com a imposição de algum desconforto a esses animais.

Exemplo claro é a limitação do espaço físico para as galinhas poedeiras, que vivem em gaiolas de 40cm x 40cm, sem espaço suficiente até para bater as asas, hábito comum entre suas felizes parentes caipiras, criadas em áreas livres. Também às porcas criadeiras são destinadas baias mínimas que lhes dificulta ou impede os mais triviais movimentos.

Nada de comer grama ou fuçar a terra na busca de minhocas e outras guloseimas que alegram a vida das suas primas moradoras da roça. Há ainda o sofrimento imposto às vacas, quando através da seleção genética, induzimos o aumento constante da “fabricação” de leite. Este aprimoramento leva a um crescimento anormal do úbere, onde fica armazenado.

Alguns animais produzem 50 / 60 litros de leite dia, chegando em casos especiais a atingir 100 litros em 24 horas. O peso extra que as vacas carregam causa grande desconforto. Basta ver a dificuldade delas para caminhar ou deitar, principalmente antes da ordenha. Entretanto esses procedimentos não levam necessariamente a um lucro maior aos produtores, mas sim a um barateamento dos alimentos para o consumidor.

Há 60 anos gastávamos em média 60% do salário em alimentação, hoje, com técnicas aprimoradas, passamos a consumir não mais que 30% do ganho mensal para comprar os alimentos necessários. A corrida por processos mais eficientes de manejo acelera a produtividade em ambientes menores, diminuindo os custos. Entretanto quando disseminados entre os pecuaristas a produção aumenta e os preços caem.

É possível melhorar a vida das vacas, porcas e galinhas. Isso não implicaria em perda de ganhos para os produtores, mas certamente aumentaria o preço dos produtos nos supermercados. Por exemplo, para ofertarmos espaço confortável para as galinhas, teríamos que triplicar ou quintuplicar a área construída, aumentar os gastos com mão de obra e pagar muito mais pela energia elétrica gasta no aviário.

Estes aumentos seriam repassados no preço final do ovo. O mesmo raciocínio vale para os suínos e os frangos de corte, que também são amontoados em galpões até o dia do abate. Creio que os criadores não teriam resistência em adaptar-se ao aumento do espaço para os animais, desde que vendessem mais caro a produção, preservando as margens de lucro que são muito espremidas. Leis que definam espaços maiores para os animais encontrarão muitas resistências, porém não são impossíveis. Afinal a benvinda ideia de minorar o sofrimento dos animais prospera rapidamente no mundo.

Percebe-se que cada vez mais o humanos preocupam-se com bem estar dos animais. Alguns, entretanto, com exagero, lhes atribuem sentimentos semelhantes aos nossos. Só falta emprestar-lhes também alma, com garantia do paraíso celestial quando extinguir a vida terrena.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor renato@hotelgranodara.com.br

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