Entenda por que as gigantes da aviação estão unindo forças

Boeing e Embraer formarão nova empresa a partir da divisão comercial da brasileira, avaliada em US$ 4,75 bilhões; Airbus e Bombardier já haviam feito acordo no ano passado.

05/07/2018 - 14:36:32

   

Combinação de fotos com as marcas da Boeing e da Embraer. As marcas anunciaram nesta quinta (5) a criação de nova empresa avaliada em US$ 4,75 bilhões (Foto: Denis Balibouse/Reuters; Roosevelt Cassio/Reuters)

A Boeing e a Embraer anunciaram nesta quinta-feira (5) o esperado acordo para unir seus negócios, por meio da criação de uma nova empresa. A companhia norte-americana deterá 80% da divisão de aeronaves comerciais da fabricante brasileira, que ficará com os 20% restantes.

É o segundo grande acordo do setor aéreo em 9 meses. Em outubro do ano passado, a Airbus comprou metade do programa de aviões de médio alcance da Bombardier.

Entenda o acordo entre a Boeing e Embraer:

Em que consiste o acordo entre as duas companhias?

A Boeing e a Embraer assinaram um acordo de intenções para formar uma joint venture (nova empresa) na área de aviação comercial, avaliada em US$ 4,75 bilhões. A fabricante norte-americana deterá 80% do novo negócio e a Embraer, os 20% restantes.

As operações e serviços de aviação comercial da Embraer foram avaliados em US$ 4,75 bilhões. A Boeing, maior fabricante de aeronaves do mundo, deve pagar US$ 3,8 bilhões pelos 80% da joint venture.

Em 2017, a área de aviação comercial da Embraer respondeu por 57,6% da receita líquida da companhia, com US$ 10,7 bilhões de um total de US$ 18,7 bilhões.

O que é uma joint venture?

Joint venture é uma empresa criada a partir dos recursos de duas companhias que se unem e passam a partilhar os custos e dividir seus resultados financeiros (lucros e prejuízos).

No caso da Embraer e Boeing, a expectativa é de que a nova empresa gere uma sinergia anual de custos estimada em cerca de US$ 150 milhões, sem considerar impostos, até o terceiro ano do negócio.

O acordo ainda precisa ser aprovado?

Sim. A transação ainda depende do aval dos acionistas – entre os quais, no caso da Embraer está o governo brasileiro – e dos órgãos reguladores do mercado brasileiro e americano.

Caso as aprovações ocorram no tempo previsto, a expectativa é que a transação seja fechada até o final de 2019, entre 12 a 18 meses após os acordos definitivos.

Por que Boeing e Embraer estão unindo forças?

A Boeing e a Embraer anunciaram no fim do ano passado que estudavam unir seus negócios. A expectativa era de que a união entre as duas poderia criar uma gigante global de aviação, com forte atuação nos segmentos de longa distância e na aviação regional, e capaz de fazer frente a uma união similar entre as maiores concorrentes, Airbus e Bombardier, que também se uniram.

A americana e a brasileira se unem para tentar consolidar em um mesmo negócio duas operações fortes, uma em aviação de longa distância, outra para deslocamentos regionais. Enquanto a Boeing é a principal fabricante de aeronaves comerciais para voos longos, a Embraer lidera o mercado de jatos regionais, com aeronaves equipadas para voar distâncias menores.

As duas empresas já eram parceiras?

As duas empresas já eram parceiras em diversos projetos antes de anunciar a negociação de uma fusão. Ainda em 2017, elas haviam fechado acordo para venda e suporte técnico do novo cargueiro da Embraer, o KC-390. As duas empresas mantêm um centro de pesquisas conjunto sobre biocombustíveis para aviação em São José dos Campos desde 2015.

Qual a relação do governo brasileiro com a Embraer?

O governo federal é dono de uma "golden share" na Embraer, que garante poder de veto em decisões estratégicas da companhia, entre elas a transferência de controle acionário da companhia.

Em janeiro deste ano, depois que a Boeing e a Embraer anunciaram que estavam negociando uma fusão, o governo decidiu que não venderia o controle da empresa à norte-americana. Porém, defendeu uma parceria entre as duas companhias.

Procurado nesta quinta (5), o Palácio do Planalto não se pronunciou sobre o novo anúncio.

A Embraer foi privatizada em 1994, no fim do governo Itamar Franco, por R$ 154,1 milhões (valores da época), quando o governo obteve o poder de decisão sobre a companhia.

Quem vai comandar a nova empresa?

A joint venture será liderada por uma equipe de executivos no Brasil, mas a Boeing vai controlar as operações e a gestão do negócio.

Ainda não está claro qual será o papel do governo brasileiro na joint venture.

O que vai acontecer com os funcionários da área comercial da Embraer?

Eles serão transferidos para a nova empresa que será formada em parceria com a Boeing. As unidades de São José dos Campos e Taubaté vão ficar com a nova empresa. A fábrica em Eugênio de Mello, distrito de São José, ficará com Embraer.

Nos demais setores, Defesa e Aviação Executiva, que permanecem sob o domínio da Embraer, não haverá mudança para os funcionários.

Veja abaixo o perfil das principais empresas de aviação:

Boeing (EUA)

Maior e mais rentável fabricante de aeronaves do mundo, a Boeing faturou US$ 93,3 bilhões no ano passado. A cada US$ 1 em vendas, US$ 0,60 são provenientes da comercialização de aeronaves comerciais. Só em 2017, essa área entregou 763 aeronaves a empresas aéreas de todo mundo.

A empresa norte-americana possui uma carteira de encomendas da ordem de 5.800 aeronaves comerciais, avaliadas em US$ 421 bilhões. A empresa também possui uma área de prestação de serviços.

Dentre as grandes fabricantes, a Boeing é a que possui maior parcela de seu faturamento vindo de sua divisão que fabrica aeronaves para Defesa, Espaço e Segurança. Os caças de guerra e aviões cargueiros rendem 22,5% da receita da empresa.

As encomendas nessa área são avaliadas em US$ 50 bilhões, dos quais 60% foram feitas pelas Forças Armadas dos EUA. A dependência do governo norte-americano é o fator que a Boeing acredita ser um dos problemas de seu negócio. Pouco menos de um terço da receita da empresa é resultado de contratos com a administração pública dos EUA, o que está sujeito a regulamentações próprias e investigações especiais, que, dependendo do resultado, podem impactar o balanço financeiro da Boeing.

Embraer (Brasil)

Nascida a partir de projetos de aviões desenhados no Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Embraer só decolou, em 1969, após receber investimento do governo militar.

Empresa estatal até 1994, quando foi privatizada, a Embraer é a maior fabricante de aeronaves brasileiras e a principal fornecedora da Força Aérea Brasileira (FAB). Apesar disso, a empresa não depende das receitas vindas de sua divisão militar, que respondeu por R$ 3 bilhões, 16,3% das receitas em 2017.

Os contratos advindos da origem militar da empresa foram suplantados pela especialização em fabricar aviões de pequeno porte. Os dados financeiros mostram isso, já que a aviação comercial responde por R$ 10,7 bilhões, 57,7% do faturamento, enquanto a fatia da aviação executiva, cujas receitas são de R$ 4,7 bilhões, é de 25%.

Airbus (França)

A Airbus possui uma distribuição de receita mais equilibrada do que a Boeing. Nenhuma região responde por mais de 30% do faturamento (vai dos 29% da receita vindos da Ásia e Pacífico aos 7% da América Latina), o que a deixa em uma posição confortável quanto a instabilidades regionais ou nacionais.

A fabricante obtém 76,3% de suas receitas da aviação comercial e 16,1% de sua divisão de Defesa e Espaço. Diferentemente das outras três, a Airbus possui um departamento focado em produzir helicópteros, que possui participação relevante, de 9,6%. Em 2017, por exemplo, entregou 409 dessas aeronaves.

Desde 2016, a empresa vem fazendo compras e desinvestimentos para se fortalecer diante da competição com a Boeing em voos de longa distância e se reforçar em voos regionais. Ainda naquele ano, a empresa vendeu boa parte do que detinha da Dassault Aviation. Também começou a desfazer de seu negócio de defesa eletrônica. Vendeu a principal unidade que ficava em Ulm (Alemanha) por 823 milhões de euros para a firma de investimento Kohlberg Kravis Roberts. A unidade francesa vai ser vendida ainda em 2018.

Esses negócios foram um preparativo do caminho para a Airbus dar o maior passo de sua história e se aliar à Bombardier. Com a compra da produção dos modelos C-Series, a empresa francesa poderá incrementar seu portfólio com aviões leves.

Bombardier (Canadá)

Apesar de uma das líderes em aviação regional, a Bombardier ganha dinheiro mesmo é com infraestrutura de transporte para outros modais diferentes do aéreo. Sua divisão que fornece infraestrutura para o transporte ferroviário, das composições aos serviços de controle, responde por metade dos 16,2 bilhões de euros faturados em 2017.

As vendas de aeronaves executivas e da área de aviação comercial respondem por receitas de 5 bilhões de euros e 2,9 bilhões de euros, respectivamente.

Dentre as quatro maiores fabricantes de aeronaves, a Bombardier é a única que registrou prejuízo em 2017. As perdas somaram 553 milhões de euros. A boa notícia é que a empresa conseguiu reduzir o buraco, já que perdeu 981 milhões de euros no ano anterior.

MT Agora - G1

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