Economia

Mercado reage mal a acordo entre Embraer e Boeing, mas caminho era inevitável, dizem analistas

Para especialistas, principal ganho da Embraer será a competitividade e redução de custos; ações da empresa chegaram a cair mais de 15% após o anúncio.

Acordo Bilhionário | 05 de Julho de 2018 as 14h 55min
MT Agora - G1

Boeing e a Embraer anunciaram acordo que forma nova empresa (Foto: Roosevelt Cassio/Reuters)

O mercado reagiu de forma negativa ao acordo anunciado pela Embraer e Boeing nesta quinta-feira (5), mas o caminho era inevitável para as duas empresas, sobretudo depois que a que a Airbus comprou parte da Bombardier no ano passado, disseram analistas ao G1.

As duas empresas anunciaram nesta quinta-feira (5) uma joint venture (nova empresa) na área de aviação comercial da companhia brasileira avaliada em US$ 4,75 bilhões.

Por volta das 13h30, as ações da Embraer chegaram a recuar mais de 15%, enquanto o Ibovespa operava próximo da estabilidade.

Os analistas apontam duas razões para a queda do preço das ações da Embraer: a alta acumulada na ação da empresa ao longo deste ano diante do expectativa pela negociação e o valor do acordo anunciado nesta quita-feira mais baixo do que o esperado.

Desde o início do ano, a empresa ganhou R$ 5,113 bilhões em valor de mercado, segundo a Economatica, e portanto, há espaço para realização de lucro pelos investidores.

Na leitura do BTG Pactual, o valor do acordo ficou abaixo do esperado para o segmento de aviação comercial. “O 'valuation' foi inferior ao esperado para o segmento de aviação", escreveram os analistas do banco, embora eles acreditem que há espaço para uma alta do preço das ações da companhia.

Caminho esperado

Depois que a Airbus comprou parte da Bombardier no ano passado, era uma questão de tempo para que a grande rival Boeing fizesse algo parecido.

O alvo dos norte-americanos foi a brasileira Embraer, que passará o controle da divisão mais lucrativa para a Boeing, mas ganhará competitividade em vendas e tecnologia, segundo consultores do setor.

"É uma pena que o negócio de aviação comercial deixe de ser de acionistas brasileiros, mas é uma necessidade para que a Embraer continue competitiva no futuro", afirmou André Castellini, da consultoria Bain Company, em entrevista à GloboNews.

Segundo o analista, sem um acordo, a Embraer teria que competir com a dupla Airbus e Bombardier e também com a Boeing, já que a empresa norte-americana não ficaria sem os aviões regionais – o produto de desejo que movimentou o setor.

Isso porque Boeing e Airbus são tradicionalmente responsáveis por desenvolver aviões grandes, para levar entre 150 e 400 passageiros, enquanto Bombardier e Embraer fazem modelos com alcance e capacidade menores, para até 150 passageiros.

"A Boeing e a Embraer se completam, assim como Airbus e Bombardier", explica Nelson Riet, consultor e ex-diretor de operações da Varig .

Além de Embraer e Bombardier, o segmento de jatos regionais está ficando mais disputado com a entrada de novas empresas, a russa Sukhoi, a japonesa Honda e a chinesa Commercial Aircraft Corp.

"A Embraer tem o melhor produto, é líder no segmento, mas tem outras empresas entrando, então o setor vai se tornar ainda mais competitivo", afirmou Castellini.

Vantagens

Ao fazer parte da Boeing, o principal ganho da Embraer deve ser com relação à força de vendas. Conforme apontaram os dois especialistas, a empresa norte-americana possui contatos, metodologias e ferramentas comerciais no mundo inteiro.

"Vender um avião tem um custo enorme. É preciso mandar técnicos para diversos países. Entrando nesse esquema com a Boeing, a Embraer diminui seu custo", explicou Riet.

Além da divisão comercial, Boeing e Embraer também prometem uma outra joint-venture, com acordos específicos em engenharia e suprimentos, para vender o avião militar KC-390. A área militar da Embraer não entrou no acordo anunciado hoje.

A parte de tecnologia será outro benefício para a Embraer, que desenvolveu ao longo dos anos um forte departamento de engenharia e desenvolvimento, mas pode ganhar ainda mais com toda parte de pesquisa da Boeing.

"Talvez haja até oportunidade para os engenheiros da Embraer serem transferidos para projetos da Boeing. Talento aeronáutico é uma mercadoria escassa, e a Embraer tem uma reputação excelente", afirmou Castellini.

Contras

O acordo ainda precisa ser consolidado, e isso deve levar cerca de 18 meses, mas especialistas apontam mais aspectos positivos do que negativos, embora algumas dúvidas se apresentem com relação a projetos futuros e a operação brasileira.

Primeiro, as duas empresas passarão a trocar informações mais completas sobre a operação, e o governo brasileiro precisa aprovar a transferência do controle acionário em meio a um cenário de eleições presidenciais neste ano.

"A Boeing conhece as incertezas do nosso ambiente político, e acho que eles vão adiante apesar disso", comentou Castellini.

Embora a Embraer tenha informado em comunicado interno que os funcionários 100% dedicados à aviação comercial terão emprego garantido na nova empresa, o sindicato local teme cortes cortes no futuro.

A transferência do controle também deixa em aberto o futuro da divisão de aviões comerciais. O comunicado divulgado hoje não esclarece se os aviões continuarão com a marca Embraer, mas neste primeiro momento o nome não deve mudar, segundo Riet.

"Estamos juntando um grande com um pequeno, então temos que ficar atentos para não sucumbir ao longo do tempo", completa Riet.

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