Últimos Dias

Selma se mostra incomodada com PSL e diz que não é Bolsonaro ‘até debaixo d’água’

A juíza aposentada afirmou que o PSL é um partido que a incomoda

Por: Arthur Santos da Silva | Olhar Direto
15 de Setembro de 2019 as 18h 47min

A juíza aposentada afirmou que o PSL é um partido que a incomoda. Foto: André Coelho | Folhapress

Em seus últimos dias como senadora pelo PSL, Selma Arruda concedeu entrevista ao Estadão expondo pontos polêmicos da ainda curta trajetória em Brasília. A juíza  aposentada afirmou que o PSL é um partido que a incomoda, explicou que não é Bolsonaro “até debaixo d’água”, classificou a reforma da previdência defendida pelo governo Federal como “a coisa mais cruel dos últimos tempos” e finalizou expondo desprendimento do atual cargo, caso sua cassação seja mantida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Se não der certo, eu faço a mala e volto pra casa, rindo”, ironizou.
 
Confira a reprodução da entrevista:
 Sob a vista de um quadro de Jesus, de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, e de uma escultura de um Cristo crucificado – nas paredes de seu gabinete –, a senadora de primeiro mandato Selma Arruda (MT), juíza aposentada também conhecida como “Moro de saias”, disse ao Estado que decidiu sair do PSL, o partido do presidente Jair Bolsonaro. “São coisas graves, é uma pressão que vem de todo lado – e é por isso que eu vou sair do PSL”, afirmou. “Na próxima quarta—feira vou me filiar ao Podemos”.

Não explicitou as “coisas graves”, mas disse que foi “pressionada por membros do PSL” para retirar sua assinatura do pedido para a instalação da CPI da Lava Toga. O único nome que citou foi o do senador Flávio Bolsonaro, igualmente do PSL e filho do presidente da República. Também alegou, entre os motivos da saída, a “falta de solidariedade” do PSL em relação ao processo de cassação de seu mandato, em andamento no Tribunal Superior Eleitoral.

Selma Arruda – 56 anos, 22 deles como juíza - fez a campanha com as bandeiras do candidato Bolsonaro e da operação Lava Jato. Foi eleita em primeiro lugar com 678.542 votos (24,65% dos válidos). Nem tinha assumido o mandato quando, em janeiro deste ano, o Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso desaprovou suas contas de campanha por unanimidade. Uma segunda decisão unânime do mesmo TRE, em abril, cassou seu mandato e o de seus suplentes, por abuso de poder econômico e caixa 2.

Negando todas as acusações, a senadora recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – onde o processo tramita, sob a relatoria do ministro Og Fernandes. No começo da semana foi divulgado o parecer da procuradora geral da República, Raquel Dodge, favorável à cassação do mandato. A qualquer momento o relator pode levar o caso a julgamento no plenário.

Também aguarda julgamento, no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), um Procedimento Administrativo Disciplinar (PDA) em que é acusada de usar o cargo de juíza para aproveitamento político e midiático. Está nas mãos do corregedor do CNJ, ministro Humberto Martins, aguardando data de julgamento. Não é a primeira vez que ela passa pela corregedoria do CNJ. Foi advertida, em 2008, por ter admitido seu marido, advogado e policial rodoviário federal aposentado, como voluntário na vara em que era juíza, sem nenhuma formalidade legal. Mesmo punida com a advertência, não admite que tenha errado. “Eu estava certa”, afirmou. Sobre o PDA que ainda vai a julgamento, disse que o Tribunal de Justiça do Mato Grosso “opinou favoravelmente” a ela, e que “a tendência é ser arquivado pelo CNJ”.

A senadora recebeu o Estado na tarde da última quinta-feira, no gabinete 15 da ala Teotônio Vilela do Senado. Aparentava tranquilidade. “Quando você não deve, é difícil ficar preocupada”, afirmou, antes de ligar sua metralhadora verbal. A munição é farta de teorias conspiratórias, sem nenhuma prova, principalmente contra os juízes do TRE/MT que cassaram seu mandato por unanimidade. A assessoria do Tribunal disse ao Estado, em nome deles, que “as decisões foram tomadas em cima das provas dos autos”.

Os olhos verdes de senadora choraram com vontade durante os minutos em que lembrou a morte dramática de sua filha Letícia, advogada de 25 anos, em 2014, vítima de um câncer de pele devastador. “Cada cicatriz é uma vitória”, dizia, segundo a memória da mãe. “É isso que me dá coragem”, afirmou a senadora com a maquiagem borrada. A seguir os principais trechos da entrevista:

Quais são as suas razões para sair do PSL, o partido do presidente Jair Bolsonaro?

O PSL é um partido que me incomoda, não apenas pela falta de solidariedade em relação a todo esse processo que eu estou enfrentando [de cassação do mandato], mas também em relação a essas pressões de membros do partido para tirar a assinatura do pedido de CPI da Lava Toga. Não tenho mais jeito de permanecer nesse ambiente.

Quais membros do partido a pressionam para tirar a assinatura?

O senador Flávio Bolsonaro. Mas não é só ele.

Quem mais?

Não é hora de citar mais nomes.

O senador Flávio falou diretamente com a senhora para retirar a assinatura?

Sim.

Foi uma conversa amigável?

Não. Mas não quero entrar em detalhes.

Por que a sra. optou pelo Podemos?

O Podemos faz parte da base do governo, e te deixa livre para seguir as convicções. Eu tenho dito, desde a campanha, que não sou seguidora incondicional do Bolsonaro. Não sou Bolsonaro até debaixo d’água. Casamento homossexual, por exemplo, eu nunca fui contra isso.

Como o Podemos se posiciona em relação ao processo que ameaça cassar o seu mandato?

A postura é de amparo. Já estou muito ligada a eles. Outro dia nos reunimos, e me disseram: “O que é que a gente pode fazer para te ajudar? Quer que todo mundo vá pro plenário e bote a boca no trombone?”. Eu me sinto acolhida. Nunca tive isso do PSL.

Alguma divergência de fundo com o PSL?

O PSL tem tido alguns posicionamentos que são contrários aos meus princípios. Por exemplo. A reforma da previdência, na minha opinião, é a coisa mais cruel dos últimos tempos.

E o que isso diz sobre o PSL?

O partido não tem uma consistência ideológica própria. Não tem um formato de partido. Não é um lugar que tu encontres uma ideologia que não seja mero repeteco de algumas frases prontas. Tudo é culpa da esquerda. Todo mundo é comunista. Eu não dou conta disso. Não tem uma liderança. Não tem envolvimento nem sequer do próprio presidente da República. Ele não consegue se envolver com a gente.

Algum exemplo?

Eu, senadora da República, do partido do presidente, estou tentando uma audiência com o ministro da Saúde tem alguns meses. O PSL se deixou dominar muito pelo DEM, no governo. Alcolumbre é DEM. Maia é DEM. Lorenzoni é DEM. Tereza Cristina é uma excelente ministra, mas é DEM. O PSL não tem um comportamento de partido. Você se sente perdido lá.

Qual tem sido o papel do presidente Bolsonaro em relação ao PSL?

Uma vez eu e Soraya (Thronicke), a outra senadora do PSL), fomos ao presidente. “Presidente, o sr., por favor, conte conosco para apoiar o governo. Nós somos senadoras do PSL e nós queremos que o sr. nos diga qual é a sua orientação”. Ele respondeu: “Cada uma de vocês vote de acordo com a sua orientação, a sua consciência”. Sabe um trem perdido? É desse jeito. E, além disso, essa atuação por baixo dos panos para minar a instalação da CPI da Lava Toga.

Quem do Podemos influiu mais para a sua filiação?

Os senadores Álvaro Dias, Lavoisier Martins, Oriovisto Guimarães, Eduardo Girão. O Álvaro é um grande líder. Eu teria votado nele para presidente se não estivesse no PSL. Todos nomes qualificados, extremamente inteligentes. Girão é um homem espiritualizado. Pessoas que vem com a alma limpa para a política.

Alguma decepção com o major Olímpio, líder do PSL no Senado?

Absolutamente. Nem como líder, nem como homem. É íntegro. Um sujeito absolutamente honesto. E também está com um pé fora do PSL.

E os outros dois senadores do PSL – Soraya e Flávio Bolsonaro?

A Soraya é uma grande irmã que eu consegui aqui. Quando eu fui cassada, ela correu aqui. Eu chorei no ombro dela.

E o senador Flávio?

O Flávio é filho do presidente. É um pouco ausente no Senado.

Por que a senhora está evitando uma crítica direta?

Porque essa crítica iria respingar no presidente. Seria uma crise a mais, e a gente pode evitar.

Alguém do PSL falou com a sra. para não sair do partido – ou todo mundo ficou aguardando a sua saída?

Ficou todo mundo apreciando a minha saída. Ontem o [Antônio] Rueda, vice-presidente do PSL, me ligou, e perguntou se era verdade. Eu disse: “Ainda estou no PSL, mas por pouco tempo”. Ele não disse nada.

E o Luciano Bivar, presidente?

Nada, também. A imprensa inteira publicou que eu estava pensando em sair, e ninguém falou nada.

É como se estivessem torcendo para a senhora sair?

É a questão da postura. Se o presidente da República fala que cada um pode agir de acordo com a sua convicção, isso tem que ser uma regra.

O TRE do Mato Grosso reprovou suas contas de campanha, e cassou o seu mandato. Duas decisões unânimes, do tribunal pleno, envolvendo, ao todo, oito juízes. Não é muita coisa contra a senhora? Ou são todos cegos, equivocados, errados e, manipulados, como a sra. tem dito, genericamente, e sem provas?

Não são oito juízes. São dois. Os que foram relatores dos respectivos casos, ambos com ligações com poderosos que eu mandei prender. O resto dos juízes foi na onda.

A senhora não judicializou essas acusações – o que as torna levianas. Não?

Não.

Qual é a sua expectativa em relação ao julgamento do TSE, que pode ou não cassar o seu mandato?

Tenho certeza absoluta que eu não fiz nada irregular. Do ponto de vista técnico, jurídico, estou absolutamente tranquila, e confiante. O meu temor é que não seja um julgamento jurídico, e sim político, de alguma forma influenciado por esse jogo político. Mas ainda assim eu prefiro confiar, porque a composição atual do Tribunal é muito técnica e muito correta.

A senhora a tem de memória?

Rosa Weber, Barroso, Fachim, que são tidos como os mais malvados do STF, mas malvados para vagabundos. Se eles são corretos, eles vão ler o processo e vão ver que não tem nada errado. Tem mais o relator, que é o ministro Og Fernandes, e mais dois advogados, não lembro os nomes.

O parecer da procuradora Raquel Dogge pode pesar na balança?

Um tribunal superior já não tem mais aquela imaturidade de quando você é juiz novinho e fica achando que promotor tem razão em tudo.

Recorreria de uma decisão adversa?

Meu advogado é que vai resolver, mas em princípio não. Eu peguei uma aversão por isso tudo, por esse sistema, por essa nojeira. Em sentido figurado, tenho que tomar um dramim por dia, pra vir ao Senado. Porque dá nojo.

A senhora está preparada para uma decisão adversa?

Absolutamente preparada. Confio que não aconteça, mas não descarto que aconteça. Porque eu já sofri dois reveses. Se der certo, parabéns. Se não der certo, eu faço a mala e volto pra casa, rindo.


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