Treze de Mato Grosso são citados em delações da Odebrecht

O último nome de Mato Grosso revelado foi o do ex-prefeito de Colniza Assis Raupp (PMDB). Ele aparece na lista da Odebrecht como um dos beneficiários de repasses de propina da empresa, de acordo com o Estadão.

18/04/2017 - 10:20:38

   

À medida que os depoimentos dos diretores e ex-diretores da Construtora Odebrecht, delatores da Operação Lava Jato, são tornados públicos, sobe o número de políticos e agentes públicos de Mato Grosso citados em casos de propina e “transações suspeitas”. Embora nem todos sejam investigados, atualmente, nada menos que 13 pessoas do Estado já apareceram nos documentos emitidos pela Procuradoria-Geral da República. Os procuradores descobriram até mesmo a origem dos mais de R$ 1,7 milhão usados por integrantes do Partido dos Trabalhadores que, em 2006, tentaram comprar um dossiê falso contra o então candidato ao governo de São Paulo, o senador José Serra (PSDB). O episódio ficou conhecido como o “Escândalo dos Aloprados”.

O último nome de Mato Grosso revelado foi o do ex-prefeito de Colniza (1.065 Km a noroeste de Cuiabá) Assis Raupp (PMDB). Ele aparece na lista da Odebrecht como um dos beneficiários de repasses de propina da empresa, de acordo com o Estadão. Assis teve seu mandato cassado pela Justiça eleitoral e supostamente era o “São Francisco” na lista de propina da empresa. As informações constam na delação premiada do executivo Henrique Serrano do Prado Valadares.

Assis é irmão do senador Valdir Raupp (PMDB/RO) que também teria recebido dinheiro da Odebrecht em forma de contribuição para campanha eleitoral, por conta de sua influência política em Rondônia, segundo o delator. Os valores que Assis e Valdir teriam recebido não foram informados por Valadares.

Ao Estadão, a defesa do senador Valdir Raupp, representada pelo advogado criminalista Daniel Gerber, informou que ele contesta mais uma vez “a falsidade das alegações que fazem contra si, se colocando à disposição do Poder Judiciário para os esclarecimentos cabíveis”.

Também nesta segunda-feira (17), reportagem publicada pelo jornal O Valor Econômico aponta que o ex-vereador Lúdio Cabral (PT) teria recebido R$ 1 milhão, por meio de caixa 2, da Odebrecht. Ele aprece em uma lista com o codinome “Ema”. O intermediário do negócio teria sido o prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva, que em 2014, ano em que Lúdio concorreu ao governo de Mato Grosso, era o coordenador financeiro da campanha da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). O nome de Lúdio aparece em um pedido de abertura de inquérito ao lado de Silva e do ex-deputado federal Mariton Benedito de Holanda, o Padre Tom (PT-RO). O caso teria sido citado pelo ex-executivo da construtora, Alexandrino Alencar.

O advogado do petista, José do Patrocínio explica que nos vídeos já divulgados, Alencar não faz nenhuma menção ao nome de Cabral. “Como não houve caixa 2 na campanha, não há nenhum tipo de reconhecimento”. Patrocínio destaca que vai aguardar se a Justiça aceitará o pedido de abertura de inquérito para tomar conhecimento do inteiro teor da investigação e se manifestar. “Só o nome dele em uma planilha não quer dizer absolutamente nada. Sobretudo porque não houve nenhum tipo de caixa 2 na campanha”.

O ex-deputado federal por Mato Grosso Pedro Henry (PP) foi citado na Operação Lava Jato acusado de pedir R$ 2 milhões em propina à Odebrecht para, em troca, atuar em favor da aprovação de emenda à Medida Provisória nº 183 de 2004, que reduzia a zero a alíquota de impostos na importação e comercialização de fertilizantes e defensivos agrícolas.

Por conta disso, ele é alvo de uma das 201 petições de abertura de inquérito enviadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para que se apure o caso. Os impostos que seriam desonerados eram Contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/PASEP) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). A informação partiu da delação premiada do executivo José de Carvalho Filho.

Procurado, o advogado Luiz Alberto Derze, que atua na defesa de Pedro Henry, disse que ainda não houve notificação formal do fato e que somente depois de ser intimado é que o ex-parlamentar se manifestará nos autos do processo.

A deputada estadual Janaina Riva (PMDB), o irmão dela José Geraldo Riva Júnior e o empresário Valdir Agostinho Piran foram citados em um inquérito da Operação Lava Jato, datado de junho do ano passado, em que o procurador-geral da República Rodrigo Janot pede a prisão preventiva do doleiro Lúcio Bolonha Funaro por conta de seu envolvimento com o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB). Atualmente, ambos estão presos.

No documento, o Ministério Público Federal (MPF) aponta crimes de lavagem de dinheiro que Funaro realizava por meio de empresas de fachada das quais era dono, entre elas a Viscaya Holding Participações, Intermediações, Cobranças e Serviços. Essa empresa teria pago um débito no valor de R$ 300 mil para a empresa Floresta Viva Exportação de Madeira Terraplanagem, empresa da deputada e seu irmão. Tal valor teve como origem o empresário Valdir Piran.

Procurada, a deputada explicou que não tem conhecimento das transações da empresa Floresta Viva, uma vez que é o pai dela, o ex-deputado José Riva, quem a administra, por meio de procuração. A deputada reforça ainda que não é investigada na Ararath ou qualquer outra operação em andamento. Por sua vez, José Riva, através de seu advogado Rodrigo Mudrovitsch, confirma a declaração da filha e reforça que já prestou esclarecimentos ao MPF.

A reportagem também conversou com o filho de Valdir Piran, Valdir Agostinho Piran Júnior, que explicou que Piran já prestou explicações ao Ministério Público Federal, comprovando a licitude do negócio por meio de comprovantes de transferência bancária do valor da compra e de transferência da documentação do automóvel, que até já foi vendido novamente, no ano passado.

O esquema de lavagem de dinheiro criado entre a Odebrecht e a cervejaria Itaipava não bancou apenas o caixa 2 de campanhas eleitorais, mas também a compra, em 2006, de um dossiê contra o então candidato ao governo de São Paulo, José Serra (PSDB), episódio que ficaria famoso como o escândalo dos “aloprados do PT”.

O capítulo das falcatruas com dinheiro ilícito é narrado em detalhes pelo delator Luiz Eduardo Soares, ex-executivo da Odebrecht que atuava no departamento de propina da empreiteira. No dia 15 de setembro de 2006, a apenas duas semanas do primeiro turno das eleições para presidência, integrantes do PT foram presos pela Polícia Federal em um hotel de São Paulo ao tentar comprar um dossiê contra o então candidato tucano ao governo de São Paulo, que concorria com Aloizio Mercadante. O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentando diminuir a importância do episódio, afirmou que aquilo era obra de “um bando de aloprados”.

Foram presos em flagrante Valdebran Padilha e Gedimar Passos. Valdebran era empresário e havia sido tesoureiro do PT em Mato Grosso em 2004. Gedimar havia sido agente da PF e se apresentava como advogado do PT.

Outro episódio revelado está no depoimento do ex-executivo da constutora, João Antônio Pacífico Ferreira (foto), em que ele confirma propinas pagas a agentes públicos de Mato Grosso na ocasião do então governo do atual ministro Blairo Maggi (PP) na ordem de R$ 900 mil entre 2006 e 2007.

Os agentes públicos beneficiados, conforme o empresário da Odebrecht, foram o ex-secretário de Fazenda, Edmilson José dos Santos, à época secretário adjunto do Tesouro Estadual, cujo condinome era “cofrinho”, o ex-procurador-geral do Estado, João Virgílio Nascimento Sobrinho, “Careca”, e o procurador aposentado Francisco Gomes de Andrade Lima Filho, o “Chico Lima”, chamado pelo esquema de “Manhoso”.

Os três teriam recebido cada um deles R$ 330 mil, além de um agente público do Mato Grosso do Sul, José Miguel Milé, cujo codinome era “Palha”, que teria ficado com R$ 83,5 mil em 2006.

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