Nesta sexta-feira (20), enquanto o calendário de pagamentos de fevereiro do Bolsa Família segue avançando (os repasses vão até o dia 27), os números do programa chamam a atenção. Em Mato Grosso, são mais de 215,2 mil famílias contempladas neste mês, injetando R$ 151,1 milhões na economia do estado, com um benefício médio de R$ 702,12 por lar.
Em Lucas do Rio Verde, os dados oficiais do CadÚnico revelam que 3.228 famílias são beneficiárias ativas do programa. Embora o número seja proporcionalmente menor do que em outros polos estaduais, ele escancara um debate estrutural profundo na cidade que é vitrine do agronegócio nacional. Afinal, como um município que respira desenvolvimento e possui centenas de vagas de emprego abertas lida com a dependência assistencial?
O Impacto no Mercado de Trabalho
Para o setor produtivo de Lucas do Rio Verde — da construção civil às agroindústrias e ao comércio —, o reflexo do Bolsa Família no mercado de trabalho é um desafio diário. A cidade vive o que especialistas chamam de "apagão de mão de obra". Sobram vagas, mas faltam candidatos.
Empresários e recrutadores locais relatam frequentemente a dificuldade de preencher postos de trabalho para cargos de base. O principal obstáculo relatado nos balcões de RH e no próprio Sistema Nacional de Emprego (SINE) é o receio crônico que o cidadão tem de assinar a carteira de trabalho (CLT) e ter o seu benefício social cortado imediatamente. Esse medo acaba empurrando parte dessa força de trabalho para a informalidade ou para a inércia, agravando o déficit de funcionários nas empresas luverdenses.
A "Regra de Proteção" como trunfo para contratações
O que muitos beneficiários em Lucas do Rio Verde ainda desconhecem — e que o RH das empresas precisa passar a usar como argumento de atração — é a Regra de Proteção do novo Bolsa Família.
Essa diretriz federal permite que o beneficiário consiga um emprego com carteira assinada ou aumente sua renda e, ainda assim, permaneça no programa recebendo 50% do valor do benefício por um período de transição de até um ano. Ou seja, o cidadão pode somar o salário da indústria ou do comércio à metade do seu Bolsa Família, garantindo uma transição segura para a independência financeira sem o "corte seco" do auxílio.
A transição necessária: da assistência à qualificação
Embora os milhões injetados pelo Governo Federal todo mês movimentem os supermercados e o comércio de bairro em Lucas do Rio Verde, o objetivo final em uma economia pujante deve ser a emancipação dessas mais de três mil famílias.
O grande gargalo para absorver essas pessoas não é apenas a vontade de trabalhar, mas a qualificação técnica. O agronegócio e a indústria local estão cada vez mais tecnificados. Transformar o beneficiário da assistência social no operador de máquinas ou no assistente administrativo que as empresas de Lucas tanto procuram exige um esforço conjunto entre poder público, Sistema S (Senai/Senac) e iniciativa privada.
Em uma cidade onde o pleno emprego é uma realidade quase palpável, o verdadeiro programa social do futuro será aquele que conseguir trocar, em definitivo, o cartão do benefício pelo crachá da empresa.