Filhos e ex-enteadas de Jucá são alvos de operação da PF que apura desvio de R$ 32 milhões

Policiais cumprem 17 mandados de busca e condução coercitiva na manhã desta quinta (28) em RR, MG e no DF. Investigadores apuram supostas irregularidades em empreendimentos em Boa Vista.

28/09/2017 - 17:29:50

   

PF cumpre mandado de busca e apreensão em endereço de familiares do senador Romero Jucá (PMDB), em Roraima (Foto: Arquivo pessoal)

A Polícia Federal fez uma operação nesta quinta-feira (28), batizada de Anel de Giges, que tinha como alvos filhos e ex-enteadas do líder do governo no Senado e presidente nacional do PMDB, Romero Jucá (RR). A ação investiga desvios de R$ 32 milhões com a compra superfaturada de terreno e com obras do programa Minha Casa, Minha Vida.

Na ação, o genro da prefeita de Boa Vista foi preso por posse ilegal de arma de fogo. Dois filhos de Jucá e duas ex-enteadas dele foram indiciados por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Investigações dizem que a Fazenda Recreio, em Boa Vista, que era de propriedade de dois filhos e duas ex-enteadas de Jucá, valia R$ 3, 5 milhões, mas foi vendida por um valor superfaturado para obra do Minha Casa, Minha Vida. A PF informa que há documentos contraditórios com o valor de venda: uns citam R$ 4,5 millhões e outros falam em R$ 7 milhões.

No local, foi construído o residencial Vila Jardim, com mais de 2 mil apartamentos populares. A obra, que foi financiada pela Caixa Econômica Federal, custou R$ 185 milhões. Alan Robson, delegado da PF responsável pela operação, disse que a construtora que executou o projeto, a CMT Engenharia, agiu com apoio dos filhos e das ex-enteadas de Jucá. Assim, segundo a investigação, o dinheiro desviado na construção – cerca de R$ 31 milhões – chegou aos parentes do senador.

"A análise dos recursos bancários mostram a movimentação de pessoas físicas e jurídicas que levam ao desvio desses recursos em benefício desses investigados e em específico desses quatro proprietários da fazenda”, declarou o delegado.

Ainda de acordo com o delegado, os recursos desviados da construção eram aplicados em empresas das quais os parentes do senador são sócios.

"Um exemplo do superfaturamento da construção é o concreto usado na obra. No papel, ele foi declarado como adquirido em Roraima [a valores mais altos], mas a perícia da PF descobriu que na verdade havia uma usina de concretagem na obra do residencial Vila Jardim, gerando uma sobra de recurso que era desviado pelos investigados.”

Ainda de acordo com a PF, há indícios de irregularidades na fiscalização e aprovação do empreendimento Vila Jardim por parte de funcionários da Caixa Econômica Federal, que financiou a obra. O superintendente da Caixa em Roraima foi levado para depor na sede da Polícia Federal.

Mandados judiciais

Ao todo, a operação teve 17 mandados judiciais emitidos: 9 de busca e apreensão e 8 de condução coercitiva (quando o suspeito é levado para depor). A PF foi a endereços em Boa Vista, Belo Horizonte e Brasília. A investigação sobre o caso começou em 2015 e, segundo a 4ª Vara da Justiça Federal em Roraima, o processo tramita em sigilo.

A operação foi batizada de Anel de Giges inspirada em um dos livros da obra “A República”, de Platão, em que é discutido o tema da Justiça. O Anel de Giges, de acordo com a PF, permite ao seu portador que fique invisível e cometa ilícitos sem consequências.

Em Boa Vista, agentes da PF estiveram na casa do filho de Romero Jucá, o ex-deputado Rodrigo Jucá. No endereço, em área nobre da cidade, agentes recolheram documentos. O advogado de Rodrigo Jucá, Emerson Delgado, esteve no local, mas não quis dar declarações à imprensa.

A PF também esteve em uma fazenda onde vive Luciana Surita, ex-enteada de Jucá. Lá também mora a mãe dela, a atual prefeita de Boa Vista e ex-mulher do senador, Teresa Surita (PMDB), que não é alvo da operação.

Nessa fazenda, o marido de Luciana Surita foi preso em flagrante por posse ilícita de um fuzil de caça 7,62 e uma pistola 45 sem registros e munições.

Em Belo Horizonte, a PF cumpriu um mandado de condução coercitiva e um de busca na empresa de Elmo Teodoro Ribeiro. O empresário é sócio da construtora CMT Engenharia, responsável pelo Vila Jardim.

Ribeiro prestou depoimento na sede da Superintendência da PF na capital mineira. No cumprimento do mandado de busca, nada foi apreendido. A sede da construtora em Brasília disse que a empresa não tem nada a declarar. A reportagem não conseguiu contato com construtora em Roraima.

A Prefeitura de Boa Vista comunicou que ação da PF não tem nenhuma relação com a administração municipal. O G1 tenta contato com a assessoria da Caixa no estado.

O que diz Jucá

Em Brasília, Romero Jucá deu uma breve declaração a jornalistas no Congresso Nacional e disse que “ninguém” vai intimidá-lo. Ele também publicou uma nota sobre o assunto (veja íntegra da nota ao final da reportagem). O senador é investigado pela Operação Lava Jato, mas as diligências cumpridas nesta quinta não têm relação direta com o parlamentar de Roraima. Todos os alvos da operação Anel de Giges não têm foro privilegiado.

Responsável pela defesa de Jucá na Lava Jato, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro informou à GloboNews que o escritório dele acompanhou, em Brasília, a condução coercitiva de duas filhas do senador do PMDB.

 

Veja íntegra do posicionamento de Romero Jucá:

Repudio mais um espalhafatoso capítulo de um desmando que se desenrola nos últimos anos, desta vez contra minha família. Como pai de família carrego uma justa indignação com os métodos e a falta de razoabilidade. Como senador da República, que respeita o equilíbrio entre os poderes e o sagrado direito de defesa, me obrigo a, novamente, alertar sobre os excessos e midiatização.

Não tememos investigação. Nem eu nem qualquer pessoa da minha família. Investigações contra mim já duram mais de 14 anos e não exibiram sequer uma franja de prova. Todos os meus sigilos, bancário, fiscal e contábil já foram quebrados e nenhuma prova. Só conjecturas.

Em junho de 2016, foi pedida a prisão de um presidente de um poder, de um ex-presidente da República e de um Senador com base em conjecturas. Em setembro agora, por absoluta inconsistência jurídica, o inquérito foi arquivado. Desproporcional e constrangedor, esse episódio poderia ter sido evitado. Bem como poderia ter sido evitado o de hoje. Bastava às autoridades pedirem os documentos anexados que comprovam que não há nenhum crime cometido.

Recebo essa agressão a mim e a minha família como uma retaliação de uma juiza federal, que, por abuso de autoridade, já responde a processo no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Tornarei público todos os documentos que demonstrarão a inépcia da operação de hoje.

MT Agora - G1

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