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Estudante quer ser 1ª médica de comunidade quilombola: “Sem auxílio do Governo de MT seria impossível”

Nádia Saturnino, de 22 anos, é um dos 56 estudantes quilombolas da UFMT que recebem o Bolsa Piqui

Redação
Por: Redação Fonte: Secom Mato Grosso
08/02/2023 às 17h15 Atualizada em 11/02/2023 às 06h59
Estudante quer ser 1ª médica de comunidade quilombola: “Sem auxílio do Governo de MT seria impossível”

Descendente de escravos, a estudante de medicina Nádia Silviely Benites Saturnino, de 22 anos, é uma das beneficiadas com a bolsa de estudo de R$ 900 por mês concedida pelo Governo de Mato Grosso aos acadêmicos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) de origem quilombola. Sem apoio financeiro, ela afirma que é impossível dar sequência aos estudos.

Como o curso é integral, a estudante não tem condições de trabalhar para pagar as despesas e o Auxílio Piqui, fornecido pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc), vai ajudar na permanência dela na faculdade para que possa se tornar a primeira médica da comunidade quilombola Ribeirão dos Cocais, em Nossa Senhora do Livramento.

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“Esse auxílio é a realização de sonhos, porque hoje não tenho como trabalhar. Se Deus quiser, vou ser a primeira médica da comunidade”, declarou a jovem, que sempre estudou na Escola Estadual Vereador Amarílio Gomes da Silva, que fica na comunidade, e agora iniciou o segundo semestre da graduação.

O projeto contempla 56 estudantes da UFMT que concluíram o ensino médio em escolas da rede estadual no início do curso. A seleção dos beneficiados é feita com base na análise do histórico escolar.

Nádia chegou a fazer dois semestres de farmácia, mas tinha vontade mesmo era de fazer medicina. “Era um sonho ambicioso, porque do lugar de onde eu venho, de acordo com a minha realidade, apesar da minha mãe ter feito o melhor que ela pode, era um sonho ambicioso. Jamais teria condições de pagar um curso assim”, comentou.

Ela viu no Programa de Inclusão de Estudantes Quilombolas (PROINQ) uma possibilidade de ingressar na faculdade de medicina.

A estudante é tataraneta de Ana Martinha da Silva, que era filha de escravos e morreu aos 123 anos, em 2004, quando ainda era pequena. Por causa da idade, Ana Martinha chegou a entrar para o Guiness Book (Livro dos Recordes) como a mulher mais idosa do mundo.

Quando a acadêmica nasceu, a família morava no Quilombo do Itambé, em Chapada dos Guimarães, mas logo depois a mãe se mudou com ela para o quilombo em Nossa Senhora do Livramento. A mãe de Nádia é professora e foi a primeira da família a se formar na faculdade e sempre a incentivou a estudar.

Agora, ela espera ser referência para outros estudantes da comunidade. Atualmente, poucos moradores têm curso superior ou estão na faculdade.

A bolsa contribui com a quebra de barreiras e torna possíveis planos que aparentemente eram distantes. Aos 43 anos, Aracirdo Martins está cursando agronomia, quase 20 anos depois de ter terminando o ensino médio.

“Essa é uma ótima oportunidade para nós na universidade. E não importa a idade, se a gente quiser, se empenhar, conseguimos chegar ao objetivo. A minha comunidade conta comigo para fazer a diferença e ser referência”, contou. Até agora não há ninguém na família dele com curso superior e ele deve ser o primeiro. 

Outra vez, ele tentou fazer faculdade, mas não conseguiu continuar. “Antes comecei a fazer engenharia mecânica, mas tive que trancar porque não tive condições de me manter e agora houve essa oportunidade”, explicou Aracirdo, que é da Comunidade Mata Cavalo, também no município de Nossa Senhora de Livramento.

A renda da maioria das famílias quilombolas é baixa e é praticamente impossível o estudante se manter na cidade para frequentar as aulas, como avalia o acadêmico de direito Douglas Marques, da Comunidade Capão Verde, em Poconé.

“Esse programa é muito especial, principalmente para quem é do interior, que não tem moradia, não tem onde ficar. Sem auxílio é quase impossível, porque são famílias que ganham em torno de um salário mínimo e não teriam como pagar aluguel, alimentação”, pontuou o jovem de 18 anos.

Projeto de MT é referência

Com a concessão do auxílio, o Governo de Mato Grosso incentiva a inclusão das minorias, como destaca a superintendente de Diversidades da Seduc, Lúcia dos Santos.

O projeto desenvolvido em Mato Grosso, onde há mais de 100 comunidades quilombolas, é referência para outros estados. “Outros estados já nos procuraram, porque somos pioneiros nesse programa. E acreditamos também que esses estudantes serão referência para uma população que sempre foi ignorada socialmente”, declarou.

O benefício tem o objetivo de evitar a evasão escolar e ajudar os estudantes no início da faculdade. “Essa bolsa é mais um incentivo do Governo do Estado aos estudantes que concluíram o ensino médio na rede estadual, para que possam se manter pelos oito primeiros meses da faculdade. Com isso, vamos dar a oportunidade para que eles possam ingressar no mercado de trabalho”, pontuou o secretário estadual de Educação, Alan Porto. 

Por ano, 145 vagas em todos os cursos são destinadas aos estudantes inscritos no PROINQ. “A UFMT criou essa política para dar direito com equidade aos povos originários, aos povos quilombolas. O processo de seleção é o coeficiente de rendimento escolar dos alunos do ensino médio das escolas públicas do estado de Mato Grosso”, explicou o pró-reitor de Ensino de Graduação da instituição, Adelmo Carvalho.

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